O Cardo Mariano, cujo extrato padronizado é conhecido como silimarina, é um dos fitoterápicos mais estudados no contexto de saúde hepática — e também um dos mais associados a alegações de marketing que vão além do que a ciência efetivamente confirma.
Neste artigo, vamos entender o que é o Cardo Mariano, para que serve e o que mostram os estudos científicos disponíveis, incluindo os resultados que não confirmaram o benefício esperado.
Resumo rápido: a silimarina é um complexo de flavonolignanas extraído das sementes do Cardo Mariano (Silybum marianum), estudado principalmente em contextos de doença hepática gordurosa não alcoólica e como adjuvante em diabetes tipo 2. Uma meta-análise recente encontrou melhora de marcadores hepáticos e metabólicos, mas outros estudos mostram resultados neutros ou de relevância clínica discutível — inclusive para hepatite C viral, onde a silimarina oral não mostrou eficácia.
Principais Pontos
- Uma meta-análise de 26 estudos clínicos randomizados, com 2.375 pacientes com doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), encontrou redução de marcadores como colesterol total, triglicerídeos, LDL, transaminases (ALT e AST) e melhora da histologia hepática com o uso de silimarina (DOI).
- Em um estudo clínico randomizado com pacientes com esteato-hepatite não alcoólica (NASH) confirmada por biópsia, a silimarina não reduziu significativamente o escore de atividade da doença em relação ao placebo, embora tenha mostrado redução da fibrose hepática medida por biópsia e por elastografia (DOI).
- Uma meta-análise específica sobre hepatite C viral não encontrou diferença significativa entre silimarina oral e placebo na carga viral (RNA do HCV) ou nos níveis de ALT — ou seja, para essa condição específica, a evidência não sustenta o benefício (DOI).
O Que É
O Cardo Mariano (Silybum marianum) é uma planta cujo extrato das sementes é padronizado em um complexo de flavonolignanas chamado silimarina, composto principalmente por silibinina (também chamada silibina), o composto mais estudado e considerado o principal responsável pelas propriedades farmacológicas atribuídas à planta.
É um dos fitoterápicos com maior tradição de uso voltado à saúde do fígado, e por isso também um dos mais estudados nesse contexto — com uma quantidade relevante de ensaios clínicos randomizados publicados nas últimas décadas, especialmente em doença hepática gordurosa não alcoólica, diabetes tipo 2 e, com resultado neutro, em hepatite C viral.
Para Que Serve
Com base nos estudos clínicos disponíveis, a silimarina tem sido avaliada para:
- Apoio a marcadores metabólicos e hepáticos em pessoas com doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA/NAFLD);
- Uso adjuvante em pacientes com diabetes tipo 2, em conjunto com o tratamento convencional;
- Efeito antioxidante, com possível papel na elevação da glutationa sérica;
- Não há, atualmente, respaldo do PubMed para seu uso isolado por via oral no tratamento de hepatite C viral.
Benefícios Principais
Marcadores Metabólicos e Hepáticos na Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica
Uma meta-análise indexada no PubMed, que reuniu 26 estudos clínicos randomizados com um total de 2.375 pacientes com DHGNA, encontrou reduções estatisticamente significativas em colesterol total, triglicerídeos, LDL-colesterol, insulina de jejum e nos marcadores de lesão hepática ALT e AST, além de aumento do HDL-colesterol, com o uso de silimarina em comparação a placebo. A histologia hepática do grupo tratado também mostrou melhora significativa da esteatose (razão de chances de 3,25; IC 95%: 1,80–5,87) (DOI). Os próprios autores, no entanto, ressaltam que os efeitos ainda precisam de confirmação em pesquisas adicionais.
Fibrose Hepática em NASH — Resultado Misto, Não Apenas Favorável
Um estudo clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, indexado no PubMed, acompanhou 99 pacientes com esteato-hepatite não alcoólica (NASH) confirmada por biópsia, na Malásia, por 48 semanas, usando 700 mg de silimarina 3 vezes ao dia. O desfecho primário — redução de 30% ou mais no escore de atividade da DHGNA (NAS) — não foi significativamente diferente entre os grupos (32,7% no grupo silimarina vs. 26,0% no grupo placebo; p = 0,467). Por outro lado, uma proporção significativamente maior de pacientes no grupo silimarina apresentou redução da fibrose hepática, tanto por biópsia (22,4% vs. 6,0%; p = 0,023) quanto por elastografia hepática (24,2% vs. 2,3%; p = 0,002), sem diferença relevante no número de eventos adversos entre os grupos (DOI). Ou seja: o desfecho principal do estudo não confirmou o benefício esperado, mas um desfecho secundário relevante (fibrose) mostrou resultado favorável — um exemplo de evidência mista que vale a pena ser apresentado de forma completa, não seletiva.
Marcadores Glicêmicos em Diabetes Tipo 2 (Uso Adjuvante)
Dois estudos clínicos randomizados, controlados por placebo e indexados no PubMed, avaliaram a silimarina como adjuvante ao tratamento convencional em pacientes com diabetes tipo 2. No primeiro, com 51 pacientes acompanhados por 4 meses, o uso de 200 mg de silimarina 3 vezes ao dia (600 mg/dia) reduziu significativamente a hemoglobina glicada (HbA1c), a glicemia de jejum, o colesterol total, o LDL e os triglicerídeos, em comparação ao placebo (DOI). No segundo, com 59 pacientes com controle glicêmico insuficiente em uso de glibenclamida, a adição de 200 mg/dia de silimarina por 120 dias reduziu significativamente a glicemia de jejum e pós-prandial, a HbA1c e o índice de massa corporal, em comparação ao placebo associado à mesma medicação (DOI).
Uma Ressalva Importante sobre “Relevância Clínica”
Uma meta-análise mais antiga, indexada no PubMed, que avaliou o efeito da silimarina sobre transaminases em pacientes com diversas doenças hepáticas, encontrou reduções estatisticamente significativas em ALT e AST — mas os próprios autores classificaram essas reduções como “sem relevância clínica”, diante do tamanho pequeno do efeito e da alta heterogeneidade e baixa qualidade metodológica dos estudos incluídos (DOI). Uma meta-análise de dose-resposta mais recente, com 41 estudos randomizados, reforça esse ponto: os efeitos mais consistentes apareceram principalmente com doses altas e uso prolongado (12 semanas ou mais), com aumento da glutationa sérica, mas sem efeito significativo sobre outros marcadores, como gama-GT, bilirrubina total e capacidade antioxidante total (DOI). Isso reforça que nem toda melhora estatisticamente significativa se traduz automaticamente em benefício clinicamente relevante para o paciente.
Sem Suporte do PubMed para Hepatite C Viral (Uso Oral)
Uma meta-análise específica sobre hepatite C viral crônica, reunindo 5 estudos clínicos randomizados com 222 pacientes tratados com silimarina oral (ou silibinina intravenosa) e 167 com placebo, não encontrou diferença significativa na carga viral do HCV (p = 0,19) nem nos níveis de ALT (p = 0,45) entre os grupos que usaram silimarina por via oral e o placebo. A silimarina foi bem tolerada, mas os autores concluem que não há evidência de benefício da via oral nesses desfechos, sugerindo que a via intravenosa mereceria mais estudos (DOI). Isso é relevante porque “desintoxicar o fígado” e “tratar hepatite” são alegações comuns em materiais de divulgação comercial do Cardo Mariano — e, especificamente para hepatite C, essa alegação não é sustentada pelos estudos indexados no PubMed revisados para este artigo.
Mecanismo de Ação
A silibinina e os demais flavonolignanas da silimarina são descritos na literatura como tendo propriedades antioxidantes, atuando na neutralização de radicais livres e na estabilização da membrana dos hepatócitos (células do fígado). Um dos mecanismos discutidos é o aumento da síntese de glutationa, um dos principais antioxidantes produzidos pelo próprio organismo — efeito observado na meta-análise de dose-resposta citada anteriormente, especialmente com uso prolongado e em doses mais altas (DOI).
Uma ressalva importante: os mecanismos anti-inflamatório e antifibrótico da silimarina, sugeridos pelos achados de histologia no estudo sobre NASH, ainda não estão totalmente elucidados, e a magnitude clínica desses efeitos — como discutido na seção anterior — é objeto de debate entre os próprios pesquisadores da área.
Segurança e Considerações
- Tolerabilidade: os estudos citados neste artigo, incluindo os de maior duração (48 semanas), não relataram diferença significativa no número de eventos adversos entre os grupos que usaram silimarina e os grupos placebo.
- Interação medicamentosa: a silimarina pode interferir em enzimas hepáticas envolvidas no metabolismo de alguns medicamentos; pessoas em uso contínuo de medicação, especialmente para diabetes (como observado nos estudos citados, que podem potencializar a redução da glicemia) devem informar o uso ao médico responsável.
- Doença hepática ativa e diagnosticada: qualquer alteração significativa de exames hepáticos deve ser investigada e acompanhada por um médico — a silimarina não substitui o diagnóstico e tratamento de doenças hepáticas.
- Gestação e lactação: os estudos revisados não incluíram essas populações; a orientação de um profissional de saúde é recomendada antes do uso.
Quando Considerar Incluir na Rotina
- Como parte de uma rotina de acompanhamento de marcadores metabólicos em pessoas com diagnóstico de doença hepática gordurosa não alcoólica, sempre em conjunto com orientação médica;
- Como adjuvante ao tratamento convencional em diabetes tipo 2, mediante avaliação profissional;
- Não como tratamento isolado para hepatite C viral ou outras doenças hepáticas específicas, que exigem diagnóstico e conduta médica própria.
Perguntas Frequentes sobre o Cardo Mariano (Silimarina)
Cardo Mariano e silimarina são a mesma coisa? Cardo Mariano é o nome popular da planta (Silybum marianum); silimarina é o nome do complexo de compostos ativos extraído das suas sementes, sendo a silibinina o principal deles.
Silimarina cura hepatite? Especificamente para hepatite C viral, uma meta-análise indexada no PubMed não encontrou benefício da silimarina oral sobre a carga viral ou sobre as enzimas hepáticas em comparação ao placebo. Não é possível afirmar esse efeito como comprovado.
Silimarina “desintoxica” o fígado? Essa é uma expressão comum em materiais de marketing, mas não corresponde a um desfecho clínico específico medido nos estudos revisados aqui. Os estudos avaliam marcadores concretos, como transaminases, marcadores metabólicos e achados de biópsia — não um conceito genérico de “desintoxicação”.
Silimarina serve para emagrecer? Os estudos revisados neste artigo avaliaram principalmente marcadores hepáticos e metabólicos em contexto de DHGNA e diabetes, não perda de peso isolada como desfecho principal; não é uma indicação sustentada pela evidência aqui reunida.
Silimarina tem contraindicação? Pessoas com uso contínuo de medicações (especialmente para diabetes), gestantes, lactantes e pessoas com doença hepática diagnosticada devem consultar um profissional antes de iniciar o uso.
Em quanto tempo aparecem os efeitos? Nos estudos citados, os efeitos mais consistentes foram observados com uso contínuo de 12 a 48 semanas, dependendo do desfecho avaliado.
Uma Opção na Rotina
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Nota sobre a dose: a porção sugerida na embalagem deste produto é de 1 cápsula ao dia (250 mg/dia). Essa quantidade é bem menor do que as doses usadas nos estudos clínicos citados neste artigo, que variaram de 200 mg três vezes ao dia (600 mg/dia, nos estudos sobre diabetes) a 700 mg três vezes ao dia (2.100 mg/dia, no estudo sobre NASH). Isso não significa que a dose do produto seja inadequada para outros fins, apenas que não corresponde aos protocolos testados nesses estudos específicos — a quantidade ideal para cada objetivo deve ser avaliada por um profissional de saúde.
Aviso Legal: Este conteúdo é meramente informativo e educacional, baseado em estudos científicos indexados no PubMed. Não substitui orientação profissional de saúde. Consulte sempre um profissional qualificado antes de iniciar qualquer suplementação.
Por Fagner — Equipe FSL Farma




