A valeriana (Valeriana officinalis) é um dos fitoterápicos mais tradicionais e mais vendidos para quem busca apoio para dormir melhor. Também é, curiosamente, um dos casos mais interessantes de divergência entre diferentes revisões científicas sobre o mesmo tema.
Neste artigo, vamos entender o que é a valeriana, para que serve e por que a literatura científica sobre ela é mais mista do que o marketing costuma sugerir — separando o que estudos controlados mostraram do que ainda é incerto.
Resumo rápido: a valeriana é uma planta usada tradicionalmente como calmante e auxiliar do sono. Estudos clínicos individuais, especialmente com extratos bem padronizados, mostraram melhora de parâmetros de sono; porém, revisões “guarda-chuva” que reúnem várias meta-análises apontam evidência inconsistente e de qualidade metodológica variável. Ou seja: pode ajudar, mas não é um efeito garantido nem uniforme entre os produtos do mercado.
Principais Pontos:
- Um estudo clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, publicado em 2023, mostrou que um extrato padronizado de valeriana (200 mg/dia, com 2% de ácido valerênico), usado por 56 dias, melhorou a qualidade do sono, a latência do sono e a eficiência do sono em relação ao placebo, com medidas tanto subjetivas quanto objetivas (actigrafia e polissonografia).
- Por outro lado, revisões “guarda-chuva” mais recentes (2023 e 2024), que reúnem múltiplas revisões sistemáticas e meta-análises sobre valeriana, descrevem a evidência como inconsistente e de qualidade metodológica geralmente baixa, sem confirmar eficácia objetiva para insônia.
- O composto mais estudado da valeriana, o ácido valerênico, atua como modulador alostérico de receptores GABA-A em estudos pré-clínicos — um mecanismo compatível com efeito calmante, mas que ainda não fecha completamente a explicação dos resultados clínicos mistos.
O Que É
A valeriana é uma planta herbácea cujo extrato de raiz é usado há séculos na medicina tradicional europeia como calmante. Hoje está disponível em cápsulas de extrato padronizado, tintura e extrato fluido.
Seus principais compostos de interesse são os valepotriatos e, principalmente, o ácido valerênico — um sesquiterpeno estudado como possível responsável pelos efeitos sedativos e ansiolíticos atribuídos à planta. A concentração de ácido valerênico varia muito entre os produtos comerciais, geralmente entre 0,5% e 0,8%, embora extratos mais concentrados (com até 2%) já tenham sido testados em estudos clínicos (DOI).
Essa variação de padronização entre produtos é, segundo pesquisadores da área, uma das explicações prováveis para os resultados inconsistentes encontrados entre diferentes estudos com valeriana.
Para Que Serve
Tradicionalmente, e com base nos estudos disponíveis, a valeriana é associada a:
- Apoio à qualidade do sono e à redução do tempo para adormecer (latência do sono);
- Uso tradicional como calmante em quadros de inquietação leve;
- Uso pontual em contextos de ansiedade situacional (por exemplo, antes de procedimentos), com resultados ainda mistos na literatura;
- Uso como alternativa fitoterápica para quem busca evitar medicamentos sintéticos para o sono — sempre com acompanhamento profissional.
Benefícios Principais
Melhora de Parâmetros de Sono em Estudo Clínico Controlado
Um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, publicado em 2023 na revista Advances in Therapy, testou um extrato padronizado de valeriana (200 mg/dia, com 2% de ácido valerênico) em 80 adultos com queixas de sono, por 56 dias. O grupo que usou o extrato apresentou melhora estatisticamente significativa no escore total do Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI), na latência do sono e na eficiência do sono — medidas tanto por actigrafia de pulso quanto por polissonografia (o “padrão-ouro” para avaliação objetiva do sono) — além de redução de ansiedade e da sonolência diurna, sem eventos adversos relevantes (DOI).
A Evidência Mais Ampla é Inconsistente
Aqui está o ponto de maior rigor deste artigo: quando se olha para revisões “guarda-chuva” — que reúnem várias revisões sistemáticas e meta-análises publicadas sobre o tema — o quadro muda. Uma revisão guarda-chuva de 2024 concluiu que não há evidência de eficácia da valeriana para o tratamento da insônia com medidas objetivas, embora haja alguma melhora em medidas subjetivas de qualidade do sono (DOI). Uma revisão guarda-chuva de 2023 sobre tratamentos alternativos para insônia também concluiu que a valeriana não melhorou significativamente os desfechos de sono avaliados, ao lado de outras terapias complementares (DOI). Já uma meta-análise de 2020, que reuniu 60 estudos (6.894 participantes), encontrou efeito favorável da valeriana sobre a qualidade subjetiva do sono (10 estudos, 1.065 participantes) e sobre a redução de ansiedade (8 estudos, 535 participantes), mas atribuiu parte da inconsistência entre estudos à variação na qualidade e padronização dos extratos comerciais (DOI). Uma revisão sistemática mais antiga, de 2007, resumiu essa mesma tensão no próprio título: “segura, mas não eficaz” — a maioria dos estudos, especialmente os metodologicamente mais rigorosos, não encontrou diferença significativa entre valeriana e placebo (DOI).
Uso em Ansiedade Situacional: Resultados Mistos
Estudos mais recentes testaram a valeriana (isolada ou combinada a outras plantas) em contextos específicos de ansiedade situacional. Um estudo randomizado de 2024 encontrou redução de ansiedade com valeriana combinada à Passiflora incarnata antes de extração de terceiro molar, em comparação ao placebo (DOI). Já um estudo randomizado de 2025, em pacientes submetidos à cirurgia de prótese de joelho, encontrou redução de calafrios pós-operatórios com uma combinação de valeriana e Melissa officinalis (comparável à clonidina), mas a redução de ansiedade não atingiu significância estatística em comparação ao placebo (DOI). Ou seja: mesmo nesse uso mais específico, os resultados variam conforme o desfecho avaliado e a combinação de plantas usada.
Mecanismo de Ação
O ácido valerênico, um dos principais compostos da valeriana, foi identificado em estudos pré-clínicos como um modulador alostérico de receptores GABA-A — especificamente os que contêm subunidades beta-2 ou beta-3. Ele potencializa a resposta ao GABA, o principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central, o que é compatível com um efeito calmante e ansiolítico (DOI).
Uma ressalva importante: esse mecanismo foi demonstrado principalmente em modelos animais e em sistemas celulares — ele ajuda a explicar por que a valeriana poderia ter efeito calmante, mas não resolve, por si só, a inconsistência dos resultados encontrados em humanos. Pesquisadores apontam que a variação na concentração de ácido valerênico entre produtos comerciais (muitas vezes bem abaixo dos 2% usados no estudo clínico de 2023) é uma explicação plausível para por que “a mesma planta” produz resultados tão diferentes entre estudos (DOI).
Segurança e Considerações
- Perfil de segurança geral: a valeriana é amplamente descrita na literatura como bem tolerada, com efeitos adversos raros e geralmente leves nos estudos clínicos revisados.
- Interações medicamentosas: uma análise de notificações espontâneas de reações adversas na Austrália (2000–2015), que incluiu valeriana ao lado de outras três plantas populares (echinácea, cimicífuga e ginkgo), constatou que a maioria das reações foi leve a moderada, mas que reações graves — quando ocorreram, em qualquer uma das quatro plantas analisadas — estiveram associadas ao uso concomitante de medicamentos prescritos, reforçando a importância de informar o médico sobre o uso de fitoterápicos (DOI).
- Combinação com outros sedativos: por seu mecanismo proposto de ação sobre receptores GABA, a valeriana não deve ser combinada, sem orientação médica, com álcool, benzodiazepínicos ou outros sedativos, pelo risco teórico de potencialização do efeito depressor do sistema nervoso central.
- Efeito não é imediato nem garantido: como mostrado pelas revisões guarda-chuva citadas, nem todo estudo encontra benefício claro — a resposta individual pode variar.
Quando Considerar Incluir na Rotina
- Pessoas com dificuldade leve para adormecer, como parte de uma rotina mais ampla de higiene do sono;
- Quem busca uma alternativa fitoterápica ao invés de medicação sintética para o sono, sob orientação profissional;
- Uso contínuo por algumas semanas, já que os estudos com resultado positivo geralmente avaliaram períodos de várias semanas de uso, não uma dose única;
- Não como estratégia isolada para insônia crônica ou transtornos de ansiedade diagnosticados, que exigem avaliação profissional específica.
Perguntas Frequentes sobre a Valeriana
Valeriana funciona para todo mundo que tem insônia? Não necessariamente. Revisões guarda-chuva recentes (2023 e 2024) não confirmam eficácia consistente da valeriana para insônia com medidas objetivas, embora estudos individuais com extratos bem padronizados tenham mostrado benefício.
Valeriana vicia ou causa dependência? Não localizamos, nas buscas realizadas no PubMed para este artigo, estudos clínicos que tenham avaliado especificamente potencial de dependência ou síndrome de abstinência com valeriana — por isso, não afirmamos nada sobre esse ponto além do que foi encontrado.
Posso tomar valeriana com álcool ou remédio para dormir? Não é recomendado sem orientação médica, pelo possível efeito somado sobre o sistema nervoso central.
Valeriana serve para ansiedade generalizada? Os estudos disponíveis sobre valeriana e ansiedade são, em sua maioria, de contextos situacionais específicos (por exemplo, antes de procedimentos), com resultados mistos. Não é o mesmo que tratar um transtorno de ansiedade diagnosticado, que deve ser avaliado por um profissional de saúde mental.
Quanto tempo demora para fazer efeito? No estudo clínico de 2023 com extrato padronizado, os primeiros efeitos mensuráveis na latência do sono apareceram já nos primeiros dias, mas a melhora mais consistente na qualidade geral do sono foi observada ao longo de várias semanas de uso contínuo.
Uma Opção na Rotina
Para quem busca incluir a valeriana na rotina, a FSL Farma comercializa a Valeriana Officinalis 50mg (Extrato Padronizado) 120 Cápsulas.
Nota sobre a dose: a bula do produto sugere 50 mg de 1 a 4 vezes ao dia, ou 100 mg 2 vezes ao dia — o que totaliza entre 50 mg e 200 mg de extrato por dia. O estudo clínico citado neste artigo usou 200 mg/dia de um extrato padronizado especificamente a 2% de ácido valerênico; a página do produto da FSL Farma não informa o teor de ácido valerênico do extrato utilizado, então não é possível confirmar se a dose do produto é equivalente, em composto ativo, à dose testada no estudo — mesmo no limite superior da faixa sugerida (200 mg/dia). A FSL Farma também comercializa a valeriana em outras apresentações, como extrato fluido e tintura, que têm formas de dosagem diferentes das cápsulas. A orientação de um profissional de saúde é recomendada para ajustar a forma e a dose ao seu caso.
Aviso Legal: Este conteúdo é meramente informativo e educacional, baseado em estudos científicos indexados no PubMed. Não substitui orientação profissional de saúde. Consulte sempre um profissional qualificado antes de iniciar qualquer suplementação.
Por Fagner — Equipe FSL Farma




