A vitamina K2, na forma de menaquinona-7 (MK-7), é um nutriente lipossolúvel associado a promessas de “ossos fortes e artérias limpas”. Diferente da vitamina K1 (predominante em vegetais folhosos, com papel na coagulação), a K2 é encontrada em alimentos fermentados — o natto japonês é a fonte mais concentrada — e a forma MK-7 se destaca por ter meia-vida mais longa e maior biodisponibilidade, o que a tornou a forma preferida em ensaios clínicos e suplementos.
Neste artigo, vamos entender o que é a vitamina K2 (MK-7), para que serve e o que os estudos indexados no PubMed mostram — incluindo onde a evidência é mais forte (calcificação arterial em populações de risco) e onde é mista ou nula (densidade óssea em mulheres saudáveis).
Resumo rápido: a vitamina K2 (MK-7) atua como cofator na ativação de proteínas dependentes de vitamina K, como a osteocalcina (óssea) e a MGP (vascular). Ensaios clínicos mostram consistentemente que a suplementação reduz marcadores de proteína não carboxilada no sangue, e um ensaio randomizado recente (JAMA Cardiology, 2026) encontrou menor progressão de calcificação coronariana em pacientes com doença arterial coronariana. Já para densidade óssea em mulheres saudáveis, os resultados são divergentes entre estudos.
Principais Pontos
- Um ensaio clínico randomizado de 2 anos publicado na JAMA Cardiology (2026), com 180 pacientes com doença arterial coronariana, encontrou progressão significativamente menor do escore de cálcio coronariano no grupo que recebeu 360 mcg/dia de MK-7 comparado ao placebo (p = 0,02).
- Um ensaio randomizado de 3 anos com 244 mulheres pós-menopausa saudáveis mostrou redução significativa da rigidez arterial com 180 mcg/dia de MK-7, junto com queda de 50% na proteína MGP não carboxilada em relação ao placebo.
- Já para densidade mineral óssea, um ensaio randomizado de 3 anos com 142 mulheres pós-menopausa com osteopenia, usando 375 mcg/dia de MK-7, não encontrou diferença na densidade óssea entre os grupos, apesar de a carboxilação da osteocalcina ter melhorado.
O Que É
A vitamina K2 é um dos homólogos da família das vitaminas K, compostos lipossolúveis necessários para a carboxilação de “proteínas dependentes de vitamina K” (VKDPs). Enquanto a K1 atua principalmente no fígado, ativando fatores de coagulação, as menaquinonas (K2) têm maior capacidade de ativar proteínas extra-hepáticas — a osteocalcina, envolvida na mineralização óssea, e a MGP, um dos principais inibidores da calcificação arterial.
Existem várias formas de menaquinona (MK-4 a MK-13), mas a MK-7 é a mais estudada por ter maior biodisponibilidade e meia-vida mais longa que as demais, mantendo a carboxilação de proteínas extra-hepáticas mesmo em doses próximas à ingestão nutricional de referência (DOI). Um estudo farmacocinético mostrou concentração plasmática máxima cerca de 6 horas após a ingestão, meia-vida longa e ausência de ritmo circadiano endógeno da MK-7 (DOI).
A MK-7 comercial é obtida por fermentação bacteriana (frequentemente a partir da soja, como no natto) ou produzida sinteticamente, veiculada em óleo por ser lipossolúvel.
Para Que Serve
Com base nos ensaios clínicos localizados no PubMed, a suplementação de vitamina K2 (MK-7) tem sido estudada principalmente para:
- Reduzir a fração não carboxilada (inativa) da osteocalcina e da MGP circulantes, de forma consistente em praticamente todos os ensaios revisados;
- Auxiliar na manutenção da densidade e microarquitetura óssea em mulheres pós-menopausa, com resultados que variam conforme o estudo;
- Reduzir a progressão da rigidez arterial e da calcificação vascular, especialmente em populações com maior risco cardiovascular ou renal.
Não localizamos, nas buscas realizadas no PubMed, ensaios em humanos confirmando alegações de marketing como “aumento de energia”, “reforço da imunidade” ou “redução de rugas” — o único material relacionado à pele encontrado foi um estudo pré-clínico (fibroblastos, peixe-zebra e camundongos), que não permite conclusões sobre efeitos estéticos em humanos. Essas alegações não são tratadas aqui como comprovadas.
Benefícios Principais
Saúde Vascular: Rigidez Arterial e Calcificação Coronariana
O achado mais robusto e recente vem do estudo VitaK-CAC, ensaio randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, conduzido na Holanda com 180 pacientes com doença arterial coronariana sintomática. Após 2 anos de suplementação com 360 mcg/dia de MK-7, o escore de cálcio coronariano aumentou de 135 para 184 no grupo MK-7, contra aumento de 145 para 214 no grupo placebo — diferença estatisticamente significativa (p = 0,02), sem efeitos adversos relevantes. Publicado na JAMA Cardiology em 2026 (DOI).
Esse resultado é consistente com um ensaio anterior do mesmo grupo: em 244 mulheres pós-menopausa saudáveis, 3 anos de 180 mcg/dia de MK-7 reduziram significativamente a rigidez arterial e a proteína MGP não carboxilada em 50%, efeito mais pronunciado nas mulheres com maior rigidez arterial no início do estudo (DOI). Uma análise post-hoc de outro ensaio, com 165 mulheres pré, peri e pós-menopausa por 1 ano, também encontrou atenuação do aumento da rigidez vascular no subgrupo pós-menopausa e melhora da pressão arterial em mulheres com rigidez elevada (DOI).
Marcadores Bioquímicos do Status de Vitamina K (Osteocalcina e MGP)
Praticamente todos os ensaios com MK-7 mostram redução da fração não carboxilada (inativa) da osteocalcina e da MGP no sangue. Em pacientes em hemodiálise, um ensaio com três doses de MK-7 (45, 135 e 360 mcg/dia) por 6 semanas observou redução dose- e tempo-dependente da MGP não carboxilada, com taxas de resposta de 77% (135 mcg/dia) e 93% (360 mcg/dia) (DOI). Melhora de marcador bioquímico não é sinônimo automático de benefício clínico — por isso ensaios de desfecho duro, como o VitaK-CAC, são mais informativos.
Densidade Óssea em Mulheres Pós-Menopausa — Resultados Divergentes
Esta é a área com evidência mais inconsistente. Do lado favorável, um ensaio com 244 mulheres pós-menopausa saudáveis recebendo 180 mcg/dia por 3 anos encontrou redução do declínio de densidade e conteúdo mineral ósseo na coluna lombar e no colo do fêmur, além de melhora nos índices de resistência óssea (DOI).
Do lado neutro/negativo, três outros ensaios não confirmam esse benefício: um com 148 mulheres com osteopenia (375 mcg/dia por 12 meses) encontrou preservação da microarquitetura trabecular, mas nenhuma diferença na densidade mineral óssea (DOI); o acompanhamento dessa mesma coorte por 3 anos mostrou que, apesar de melhora na carboxilação da osteocalcina, a densidade óssea caiu em todos os sítios sem diferença entre grupos (DOI); e um ensaio norueguês com 334 mulheres (360 mcg/dia por 12 meses) não encontrou diferença nas taxas de perda óssea, apesar dos marcadores bioquímicos terem se alterado como esperado (DOI).
Uma meta-análise de 2025 sobre consumo habitual de natto em populações japonesas encontrou associação entre maior ingestão e densidade óssea modestamente maior, mas classificou a certeza da evidência como baixa a muito baixa, dado o caráter observacional dos estudos (DOI).
Em resumo: o efeito da MK-7 sobre marcadores bioquímicos de carboxilação é consistente, mas o efeito sobre densidade mineral óssea em mulheres pós-menopausa saudáveis não é unânime entre os ensaios disponíveis.
Mecanismo de Ação
A vitamina K funciona como cofator da enzima gama-glutamil carboxilase, que converte resíduos de ácido glutâmico em ácido gama-carboxiglutâmico (Gla) em determinadas proteínas — processo chamado carboxilação, que ativa funcionalmente a osteocalcina (liga-se ao cálcio na matriz óssea) e a MGP (inibe a deposição de cálcio na parede arterial).
A MK-7 é preferida em pesquisa por sua maior biodisponibilidade e meia-vida mais longa, sustentando a carboxilação de proteínas extra-hepáticas com doses relativamente baixas (DOI).
Uma limitação conceitual importante: a maior parte dos estudos usa a fração não carboxilada dessas proteínas como desfecho substituto de status de vitamina K. Essa melhora é consistente entre estudos, mas — como visto na seção óssea — nem sempre se traduz num desfecho clínico duro na mesma magnitude.
Segurança e Considerações
- Doses estudadas: variaram de 45 mcg/dia a 400 mcg/dia, passando por 120–180 mcg/dia e 360–375 mcg/dia nos estudos de maior duração sobre ossos e artérias.
- Interação com anticoagulantes: a vitamina K participa do mesmo ciclo bioquímico visado por anticoagulantes antagonistas de vitamina K (como a varfarina), podendo interferir no efeito anticoagulante. Pessoas em uso desses medicamentos não devem suplementar K2 sem orientação médica e acompanhamento de INR.
- Perfil de tolerância: no ensaio VitaK-CAC (360 mcg/dia, 2 anos), não foram observados efeitos adversos significativos. Não localizamos ensaios reportando toxicidade relevante da MK-7 nas doses estudadas.
- Gestantes, lactantes e uso de medicamentos: os ensaios revisados foram conduzidos majoritariamente em mulheres pós-menopausa e pacientes com doença coronariana, renal ou em hemodiálise — não em gestantes ou lactantes. Consulte um profissional antes de suplementar.
- Expectativa de resultado: os benefícios sobre rigidez arterial e calcificação coronariana foram observados em ensaios de 2 a 3 anos, não em semanas.
Quando Considerar Incluir na Rotina
- Pessoas com fatores de risco cardiovascular ou histórico de calcificação arterial, junto ao médico, como parte de uma estratégia mais ampla (não substitui tratamento estabelecido);
- Mulheres na pós-menopausa avaliando estratégias para saúde óssea junto a cálcio, vitamina D e orientação médica — com a ressalva de que o efeito da MK-7 isolada sobre densidade óssea não é unânime na literatura;
- Pessoas com baixa ingestão de alimentos fermentados (fonte natural de MK-7, como o natto);
- Pacientes em diálise ou com doença renal crônica, sempre sob acompanhamento da equipe médica.
Perguntas Frequentes sobre a Vitamina K2 (MK-7)
Vitamina K2 substitui remédio para osteoporose ou para colesterol/calcificação arterial? Não. Nenhum dos estudos revisados avaliou a MK-7 como substituto de tratamento medicamentoso; ela foi testada como suplementação adjuvante, com resultados mistos para densidade óssea.
Vitamina K2 e vitamina D devem ser tomadas juntas? Vários ensaios sobre ossos administraram MK-7 junto com cálcio e vitamina D em ambos os grupos, mas os estudos não isolam o efeito específico da combinação frente à K2 isolada.
Qual a diferença entre vitamina K1 e vitamina K2 (MK-7)? A K1 é a forma predominante na dieta (vegetais folhosos) e atua principalmente na coagulação. A K2 tem maior capacidade de ativar proteínas fora do fígado, como a osteocalcina óssea e a MGP vascular, e a MK-7 especificamente tem meia-vida mais longa que outras formas de K2.
Vitamina K2 reduz colesterol? Uma meta-análise de 17 ensaios não encontrou efeito significativo sobre o perfil lipídico; o único achado significativo foi pequena redução na resistência à insulina (HOMA-IR), maior no subgrupo K2 do que K1.
A vitamina K2 melhora a imunidade ou dá mais energia? Não localizamos ensaios em humanos avaliando esses desfechos para a K2 (MK-7). São alegações comuns em marketing, não tratadas aqui como comprovadas.
Em quanto tempo aparecem os efeitos? Os ensaios com desfechos clínicos relevantes (rigidez arterial, calcificação coronariana) avaliaram 1 a 2 anos de suplementação contínua; os marcadores bioquímicos se alteram em semanas a meses, mas isso não garante, por si só, um desfecho clínico equivalente no longo prazo.
Qualquer pessoa pode tomar vitamina K2? Não. Pessoas em uso de anticoagulantes antagonistas de vitamina K precisam de orientação médica antes de suplementar. Gestantes, lactantes e pessoas com condições clínicas específicas também devem consultar um profissional.
Uma Opção na Rotina
A FSL Farma comercializa duas versões de vitamina K2 isolada (MK-7): Vitamina K2 Mk-7 120 mcg (Menaquinona 7) 60 Cápsulas e Vitamina K2 MK-7 Trans Bioidêntica 65mcg Solubilizada em Óleo de Girassol 60 Softcaps.
Diferença entre as versões e frente às doses estudadas: a versão de 120 mcg fornece o dobro de MK-7 por cápsula em relação à de 65 mcg. Ambas as doses são inferiores às usadas na maioria dos ensaios com desfechos positivos revisados neste artigo — que variaram de 180 mcg/dia a 360–375 mcg/dia. Para se aproximar das doses testadas, seriam necessárias mais de uma cápsula ao dia, o que deve ser avaliado individualmente com um farmacêutico ou médico. A orientação da página do produto de 120 mcg é de 1 cápsula ao dia “ou conforme orientação de profissional de saúde qualificado”.
Aviso Legal: Este conteúdo é meramente informativo e educacional, baseado em estudos científicos indexados no PubMed. Não substitui orientação profissional de saúde. Consulte sempre um profissional qualificado antes de iniciar qualquer suplementação.
Conteúdo técnico revisado por Fagner Cruz (CRF/MG 13863), Farmacêutico especialista em Farmacologia e Bioquímica, com mais de duas décadas de dedicação à pesquisa científica de nutracêuticos e ortomolecular.




